Em Jequié, no sudoeste da Bahia, um caso estarrecedor revela até onde pode ir o abuso de poder travestido de fé. Um pastor foi preso nesta quarta-feira (3), acusado de assediar sexualmente ao menos sete mulheres da própria igreja onde pregava. O que deveria ser um espaço de acolhimento e espiritualidade virou cenário de abuso, constrangimento e violência psicológica.
Segundo a Polícia Civil, o sujeito usava a Bíblia em uma mão e mensagens pornográficas no celular na outra. Ele se aproveitava da confiança cega das fiéis para mandar textos com teor sexual, relatar “sonhos eróticos”, fazer carícias forçadas e despejar elogios de gosto duvidoso. Tudo isso com a ousadia de quem acredita que o título de “pastor” dá carta branca para agir impunemente.
As primeiras denúncias surgiram em dezembro de 2023, com cinco vítimas. Durante as investigações, mais duas mulheres decidiram romper o silêncio. Todas relatam o mesmo padrão: abuso emocional travestido de conselhos espirituais e toques inapropriados mascarados de afeto pastoral.
O púlpito virou palco de opressão
As investigações revelam que, além dos abusos físicos e psicológicos, o pastor transformava seus sermões em verdadeiros manuais de silenciamento, espalhando culpa, medo e machismo com entonação de “voz de Deus”. Era o clássico “quem reclamar, vai pro inferno”.
Danos irreparáveis
A Polícia Civil afirma que o impacto nas vítimas foi devastador. Trauma psicológico, perda de fé e isolamento social são apenas algumas das marcas deixadas por um líder espiritual que confundiu púlpito com pedestal de predador. Elas estão agora recebendo apoio psicossocial, mas a ferida é profunda — e não cicatriza com orações vazias.
O silêncio dos cúmplices
Enquanto isso, a igreja onde tudo aconteceu tenta limpar a própria imagem. A Associação de Pastores de Jequié soltou uma nota padrão, daquelas cheias de indignação protocolar, informando que “repudia os atos” e “acompanhará as investigações”. Nenhuma palavra sobre como permitiram que um lobo pastoreasse o rebanho por tanto tempo.
Outro caso escandaloso: pastor estuprador em Santa Maria da Vitória
E se você acha que é um caso isolado, engana-se. Em dezembro de 2023, outro “ungido do Senhor” foi preso em Santa Maria da Vitória, também na Bahia, acusado de estuprar uma menina de 10 anos. A isca? Um celular de presente de aniversário. O abuso? Cometido logo após um evento religioso.
A mãe da vítima flagrou a filha na garupa da moto do pastor. Ao chegar em casa, a criança contou o que aconteceu. Agora, o “santo” está preso, mas as autoridades investigam se há outras vítimas. O celular do acusado foi apreendido e passará por perícia em busca de indícios de pedofilia.
Fé não é escudo para canalhice
É preciso dizer com todas as letras: ser pastor não é licença para abusar de corpos, consciências ou almas. Enquanto líderes religiosos forem tratados como intocáveis, e fiéis continuarem sendo ensinados a obedecer cegamente, casos como esses continuarão acontecendo protegidos por um manto de silêncio, medo e conveniência.
Fica a pergunta: quantos mais terão que ser abusados até que instituições religiosas assumam responsabilidade real?
Enquanto isso, os fiéis de Jequié e Santa Maria da Vitória seguem tentando reconstruir a fé — não em Deus, mas nas pessoas que dizem representá-lo.
